domingo, 21 de outubro de 2012

Meu Aniversário por Vânia Moreira Diniz

Vânia Moreira Diniz

Hoje, 21 de outubro, é dia do meu aniversário. Desejo pedir perdão aos leitores que não gostam de reminiscências e acham que passado é apenas um saudosismo. Não é essa a minha opinião. Sem o passado seríamos apenas alguém que surgiu simplesmente sem ter construído uma vida ou uma história, sem ter tido pessoas que a educaram e formaram e sem a figura materna que carregou o filho durante nove meses alimentando-o e dando condições de sobrevivência.

Para mim o dia que se comemora o meu nascimento é uma data de gratidão primeiramente aos meus pais e também a todos os meus ascendentes.
Recordo-me a casa cheia, pois como éramos oito irmãos, o barulho era sempre ensurdecedor, fora nas horas que estávamos no colégio ou estudando, regra que meu pai não abria mão.
Muitas vezes vi minha mãe grávida de meus irmãos menores e então parece que instintivamente queria fazer uma regressão de minha vida em seu útero e começava a sonhar como se pudesse fazer idéia do que se passara na fase de feto se desenvolvendo.
Tenho certeza, no entanto, que relutei para sair do quentinho cheio de paz e que encontrei dificuldade para aceitar como todos os bebês a vida no mundo e o oxigênio entrando nos pulmões já fazendo um esforço que não era necessário. E a quase consciência do desconhecido embora não saiba de que forma.
Encontrei meu irmão mais velho, claro e rosado de enormes olhos castanhos, que corria em desespero por toda a casa e que um dia foi meu colega poeta, cheio de harmonia nos versos e sensibilidade nas descrições.
Muito tempo já se passou, perdi três irmãos jovens ainda um deles com apenas cinco anos e meus pais que se foram deixando aquela saudade que não sabemos descrever, palavra que só nós brasileiros conhecemos devidamente. Mesmo assim todos os anos do mês de outubro sinto a alegria que vivi e os momentos que passo entre felicidade do presente e recordação do passado.
Meu pai me ensinou que o aniversário deveria ser sempre um dia feliz porque nascemos com amor e festejávamos a data com uma satisfação quase instintiva.
Outubro sempre foi para mim um mês mágico não só por suas datas como também pela estação da primavera que amei e amo de uma maneira profunda, aspirando o aroma das flores, festejando o sol quente e maravilhoso, olhando para o céu azul iluminado pelas estrelas, conversando com o mar em que fui batizada, saudando a esperança do quase fim de ano que vem para nos recordar os meses que se passaram e lembrando que embora fiquemos mais velhos estamos conjugando o verbo viver com mais sabedoria.

Agradeço ao Arquiteto deste planeta deslumbrante, aos meus ascendentes e descendentes , ao meu companheiro constante que me apóia em todos os momentos, aos amigos que adquiri nessa estrada, a todos que convivem comigo e até aqueles que mal conheço mas que prezo como seres humanos que estão percorrendo esse caminho, ora feliz, ora doloroso, não importa, porém que estão escrevendo a sua biografia.
Obrigada meus pais que me deram a vida, obrigada à natureza que eu amo e aos anos que passam trazendo a expectativa de que possa me tornar uma pessoa melhor, mais experiente, menos egocêntrica e soberanamente compreensiva para com todos que atravessam minha estrada.
Obrigada por esse mês de outubro que eu amo e que me recebeu com tanto carinho.
Quando eu me for quero ter consciência que realizei pelo menos uma parte de meus sonhos e segui as lições que meus educadores me ensinaram para que possa deixar como legado aos meus descendentes.
Outubro me recebeu um bebê, me acompanhou na infância, na adolescência, na juventude e agora na maturidade plena me abraça com alegria convidando-me a divulgar sua beleza para as crianças que estão nascendo.
Vânia Moreira Diniz

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ciganinha e Monteiro Lobato -Extraído do livro"Ciganinha" de Vânia Moreira Diniz


 Homenagem à crianças

Naquele dia Ciganinha passou pela sala onde seu avô recebia visitas e entendeu que estavam falando sobre Monteiro Lobato. Os trechos de diálogo que ouvira lhe interessaram bastante e viu como seu pai tinha razão ao pedir-lhe que lesse ou perguntasse sobre a vida do autor antes de ler a história.

Desde que recebera a coleção ficara seduzida pela forma que o autor escrevia, porque a verdade é que ela se sentia longe de tudo e exatamente no lugar que  Monteiro Lobato estava. Imaginava  mesmo sendo ainda pequena e inexperiente que  isso era uma arte e resolveu que  procuraria na biblioteca de sua casa e na de seu avô, livros que falassem do autor que ela sabia paulista e que tanto a agradava.

Não precisou procurar muito. No seu próprio quarto encontrou a biografia completa dele, certamente porque seu pai a colocara ali.

E entendeu que o autor queria receber retorno das crianças que o liam porque estava magoado com os adultos.Na sua cabecinha ela imaginava o certo porque muitas vezes se decepcionara com muitos adultos mas achava no fundo que isso não dependia do tamanho ou da idade. Pensou que um dia seu avô lhe falara isso, por alguma arte que ela fizera mas na verdade seus pensamentos iam num rumo acelerado passando de uma coisa para outra . Mas voltou a Monteiro Lobato. Fechou os olhos e se imaginou Narizinho, a idade das duas era quase a mesma e sonhou acordada  cercada por príncipes e reis que podiam ser tanto da espécie animal racional como não. O importante era estar ali, divagando, vendo não sabia através de que exatamente, mas achava muito fascinante  poder enxergar coisas e vivê-las só em pensamento... Era esse um mundo que ela desde que se entendeu por gente achava intrigante e maravilhoso. Costumava deitar e de olhos bem abertos ou fechados, não importa, deixar que as imagens aparecessem como fosse um filme e por vezes participava das cenas, conversava, ria, brincava, procurava se integrar de um modo completamente ativo. Ficava pensando que esse escritor que ela tanto amava  fazia assim quando contava suas histórias, só que escrevendo. E ela sempre imaginava isso quando contava uma história escrevendo no papel o que vivia na imaginação.

Nossa! Como ela era enrolada! Se dissesse isso às pessoas iam imaginar que era maluca. Mas de repente viu a figura que mais lhe entusiasmava e que Monteiro Lobato descrevia aparecer diante dela, enorme, forte, lindo como um verdadeiro herói e sentiu alguma coisa esquisita, uma espécie de felicidade: Heracles.Era ele, ali, tão majestoso, podia até falar com rudeza mas para ela encarnava a mais espetacular pessoa que já vira. Era tão bonito que chegava a doer e perto dele não sentiria medo de nada nem de ninguém.

Não precisava ir à Grécia ou deixar crescer para um dia chegar lá, ele já estava ali e poderiam conversar, como o fazia com suas amigas, seu pai, seu avô ou qualquer pessoa próxima. Seu coraçãozinho bateu de emoção, não conseguia falar para lhe perguntar tantas coisas que passavam na sua cabeça. Quando  seus lábios pronunciaram o nome de Hércules num português claro, sentiu que ele lhe contaria todas os trabalhos que fizera e já  se sentia sabendo tudo sobre aquelas aventuras, quando percebeu que o livro de Monteiro Lobato estava aberto no seu corpinho e que permanecia solitária no quarto grande e claro onde costumava receber seus mais extraordinários personagens.
Vânia Moreira Diniz
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