sábado, 31 de março de 2012

Páscoa e Ressurreição



Acho que jamais saberemos, de fato se Jesus era o filho De Deus ou o Deus realmente porque para isso precisamos da fé. Para que tem fé, Jesus foi o filho de Deus.

Mas foi o maior filósofo que a humanidade conheceu,  sábio, conhecedor do ser humano  e com um carisma que atraiu a humanidade inteira.

De uma bondade profunda, soube amar, perdoar, acreditar defender, mas também era duro nos momentos  em que achava necessário tomar atitudes firmes.

Analisando, ele curava os que estavam doentes, dava alimento a quem tinha fome, foi amigo e humano com Maria Madalena que chamavam de pecadora e defendeu heroicamente a adúltera que estava sendo acusada, proclamando que atirasse a primeira pedra aquele que tivesse livre de qualquer erro.Mostrou assim seu apoio sempre  corajoso e superior aos mais frágeis.

Foi severo, entretanto com os vendilhões do templo, com os hipócritas,  e os fariseus mas soube perdoar seus próprios torturadores, a Judas que o traíra por dinheiro e a Pedro que por covardia lhe negou três vezes tornando-o até seu sucessor... 

Olhando sob esse prisma, poderemos deduzir a sua santidade, mesmo que não estejamos apoiados na fé. Mas acima de tudo ele foi o homem que soube dominar o planeta inteiro, durante mais de 2000 anos, com a força enigmática de suas ações, de sua palavra e dos seus gestos e atitudes. Possuía o poder de seduzir as pessoas e fazer com que elas o amassem como um líder extraordinário que reunia em sua personalidade uma força até hoje não explicada.

E se morreu na Cruz para redimir a humanidade, ou porque seus julgadores o invejavam mortalmente, de qualquer jeito foi digno de nossa reverência, respeito e admiração. Não posso afirmar a não ser com  força da fé que Jesus foi Deus mas posso assegurar que foi o maior filósofo da humanidade, aquele que  era amado pelos doentes, fracos, oprimidos e necessitados e merece por isso o nosso amor profundo.

De uma beleza profunda, olhar compassivo e amigo e a atração que emanava dele com num carisma especial, diferente, é claro de qualquer pessoa que tenha merecido o nome de líder. Seu poder não vinha de seus dotes físicos que eram grandes, mas da alma que transparecia ao primeiro contato, do vigor de sua influência nascida de uma personalidade forte e insólita.

         Nascido numa choupana, filho de um carpinteiro e de uma mulher simples, de origem judaica, um povo sofrido e perseguido , nada disso constituiu base para a causa de seu extraordinário poder. Tenha sido Deus ou filho de Deus, uma coisa é absolutamente certa: Foi o maior filósofo da humanidade com características  profundas de compreensão e justiça incompreensíveis num simples homem.

Essa semana se comemora a ressurreição de Jesus  o dia do ressurgimento, da aleluia , da alegria do renascimento em que podemos também acreditar na esperança de novo amanhecer que se repete sempre com  mais expectativa e  amor.

 Na verdade é o dia do amor que ressurge todos os dias e, foi isso, certamente que Cristo quis nos dizer ao reencarnar  na glória da páscoa.
Vânia Moreira Diniz

sexta-feira, 30 de março de 2012

Bienal 2012


Meus amigos

Hoje estou muito feliz! Trazendo uma notícia maravilhosa para o Nosso Distrito federal. Felizmente temos uma mensagem auspiciosa. A primeira Bienal do Livro e da Leitura se aproxima.
E nada é mais importante para nossa caminhada na vida do que a leitura que nos leva ao conhecimento, à atualização e a um mundo que sem ela seria cinzento e cujo horizonte nesse momento é cheio de cores para todos. Sem diferença! Nesse instante, sem nenhuma exclusão e nada é mais fascinante do que essa constatação. E é daqui que partimos para tentar eliminar os preconceitos. Leitura, livros, e ainda ajudado pela tecnologia.Nada melhor que sentir o livro entre nossas mãos. Vamos todos para Bienal!
Vânia Moreira Diniz
Presidente da Academia de Letras do Brasil

quinta-feira, 29 de março de 2012

Creio...

Creio na esperança e no amor,
Na plenitude dos sentimentos,
Na realização dos ideais em flor,
Na seiva da terra e nos alimentos.

Creio na generosidade latente,
Nos sonhos plenamente realizados,
Na solidariedade forte e crescente,
Na unidade do universo concretizado.

Creio no infinito e esplêndido mar,
Nas montanhas imensas e majestosas,
Nos casais encontrando no amor o par,
Nas estrelas cintilantes e suntuosas.

Creio na amizade, no carinho e na verdade,
Na paixão exorbitante e tão desesperada,
Nos gestos breves e mansos de suavidade,
Na saudade saciada da amiga esperada.


Creio em Deus magnífico e onipotente,
Na criação variada, perfeita, graciosa,
No céu azul e na natureza tão potente,
Na música arrebatadora perfeita e maviosa.

Creio no nascimento da espécie admirável,
Na ternura de todas as mães imprescindível,
Na morte que virá um dia firme e inadiável,
E na força para a dor e o sofrimento invariável.

Creio na força misteriosa de tantos belos rios,
Que conduzem as águas ligeiras e vacilantes,
Nas chuvas e tempestades em seus desvarios,
E nas matas e florestas em segredos tocantes.

Creio na vida que passa rápida,
Creio em sua urgência que chega veloz,
Creio em cada hora válida,
Do nosso caminho ligeiro e  atroz.

Vânia Moreira Diniz

Crianças Especiais e Encantadoras - Dedicado a todas as pessoas especiais

                                                  

          Há dias foi um dia de festa e alegria. Fui visitar e participar de uma festa, numa clínica onde muitas crianças maravilhosas carregam suas síndromes as mais variadas e são tratadas e acarinhadas com amor fazendo com que cresçam com a auto-estima em progressão. Desde de síndrome de Down até todas as outras maiores ou menores que as tornam uma criança especial.


Entrando aproximei-me de alguém que amo especialmente. Loura, os olhos azuis esverdeados fixando ao longe um ponto indistinto, imagino que queira trazer para seu interior ainda tão infantil, esperanças e  visualize o colorido da felicidade . Minha vontade é abraçá-la e pedir-lhe que nos proteja,  chorando silenciosamente no seu colinho frágil e pequenino. Minha vontade é pedir-lhe fortaleza em minhas fraquezas para que possa ajudá-la. Minha vontade é infundir-lhe um calor tão grande que suas mãozinhas geralmente frias possam aquecer-se. Minha vontade é beijá-la e protegê-la do mundo e da vida, dizendo-lhe que sempre estarei aqui. Mas estaria enganando a mim e a ela. Prometo, então que de onde estiver a amarei sempre. Minha vontade é sempre vê-la sorrir invariavelmente e terei também nos lábios o sorriso úmido da esperança.



Aproximei-me de cada uma das crianças sentindo seus anseios indistintos, vontades não expressas e vigor nas investidas, que começam a manifestar-se de uma maneira  singular e emocionante.E amei-as a todas. Querendo  perscrutar seus mundos diferentes e me envolver com cada uma, levando  ininterruptamente a fé que carrego e canalizo em direção a elas.


Em meio ao barulho dos balões e as guloseimas que usufruíam encantados, percebi o quanto de vida e alegria existiam nos rostinhos inocentes que me fixavam como a pedir que lhes desse as mãos. Transformei-me em um deles, percorrendo os meandros de seus cérebros e querendo ver na densidade semi-obscura dos pensamentos,  a luz que estaria sempre presente  no decorrer confuso da vida.


Tive a convicção da vitória, do desenvolvimento lento, mas progressivo, da alegria que  transparecia, da paz que parecia projetar algo claro e  objetivo, naquele confusos caminhos da mente  ainda não definida.


Sinto então uma mãozinha fria, apesar do corpo completamente agasalhado que buscava  meu calor.  Era a minha pequenina, tão linda sempre sonhando com aquele colorido que a encantava. Dei-lhe a mão e percorremos juntas todo o espaço, que estava cercado por barraquinhas cheias de guloseimas, ou preparado para a “pescaria” de pequenas lembranças.


Enquanto segurava–a com uma das mãos, voltei-me para pegar a mãozinha de outra criança, cujos olhos amendoados, nos traços marcantes da síndrome de Down, só ocorridos pela diferença de um cromossomo, estavam evidentes, e procurei ler dentro de seu olhar a força que carregavam. E então as pequenas pescaram com minha ajuda cada uma a sua prenda.


Vi fascinada enquanto olhavam confusas para o pequeno presente, que a vida se manifestava em cada lembrança que recebessem, com aquele olhar curioso que concentrado por um minuto, apareceu com expressão ligeiramente definida e rápida. Amei aquele instante perpassado tão rápido, que enchia meus olhos de lágrimas abundantes e os das pequeninas de lucidez.
Vânia Moreira Diniz

Adeus ao Mestre Chico Anísio

O Mestre Chico Anísio se foi para brilhar entre as estrelas, enquanto ficamos aqui com essa saudade intensa já que ele acompanhou várias gerações. Sabemos que ele está bem, rodeado de admiradores, com muita paz e talvez fazendo os anjos sor...rirem. Nesses momentos compreendemos o quanto a vida é finita sem fazer diferença para
ninguém e aí está a conclusão de que somos verdadeiramente irmãos. Não levamos para o outro Espaço vaidade, dinheiro, classe social nem diferenças de qualquer tipo. A morte é o fim de todos nós e devemos estar preparados para essa realidade,
apesar do medo do desconhecido.
Vá Mestre Chico Anísio descansar nessa galáxia, com passaporte legítimo de sua arte e talento que tanto orgulhou o povo brasileiro
Vânia Moreira Diniz

terça-feira, 27 de março de 2012

Teatro

O teatro é a forma de expressão mais perfeita em que o ator expressa a fala do personagem com toda a sua carga de energia., sentimento, de emoção.

No teatro eu me realizava não só indo a peças maravilhosas em que sentia e vivia por cada um dos atores como também recebendo a avalanche emocional que vinha do autor com a intensidade de um furacão.

Desde muito pequena comecei a exercitar e amava subir ao palco e encenar  o personagem que me destinavam, nada mais fascinante do que representar  outra pessoa com sentimentos diferentes e personalidade variada. E me vestia com a capa de alguém que amava, sofria, raciocinava e agia de maneira  às vezes e em sua maioria inusitada para mim.

Tudo ali me seduzia a ponto de na temporada que eu encenava, sentir  a personagem que eu estava vivendo assim como acontece quando escrevo um livro. Só que escrever é um ato solitário mas intenso e fantástico, enquanto o teatro as luzes ou penumbras, as pessoas que compunham a platéia, o diretor e os outros atores, o diálogo , tudo me fazia explodir em emoção interna a ponto de parecer que eu não era eu mesma. Realmente me transportava inteiramente.

Bem pequenina começou minha alucinação pelo palco como havia acontecido pela escrita. E na minha ignorância infantil imaginava que ninguém saberia transmitir o que o autor escrevia com a mesma força e expressão do que ele mesmo, trazendo na hora certa as inflexões mais enfáticas.

Na verdade acho que quando declamo meu próprio verso ele retorna o que senti na hora que o escrevi, interpretando minha alma e o sentimento que transbordava no momento que o fiz.

         E por isso, além de tudo  que o teatro sempre representou em  luzes, brilho , talento, delírio dos assistentes vibrantes e empolgados, aplausos entusiasmados, ele interpreta a expressão dos autores e a manifestação que  metamorfoseia nosso ser individual.

Quando aos 12 anos fui convidada para encenar uma peça num teatro profissional e meus pais me proibiram terminantemente, por um minuto minha alma morreu naquele sonho que consumira tantos dias do meu viver. Já tinha ensaiado a peça sem eles saberem e meu coração ruiu por tê-los enganado e por cair por terra tanta esperança, vibração e alegrias acumuladas.

Alguns anos mais tarde fiz um a temporada no teatro Ginástico português  mas tantas eram as obrigações que eu tinham em volta, embora com apenas dezesseis anos que não pude me dedicar inteiramente ao teatro.

O Teatro, no entanto é um desafio que trago dentro de mim  enclausurado mas pronto a explodir na hora exata . Um desafio que faz parte da minha missão e não poderei sair daqui, voar para outras galáxias ou abandonar essa parte da viagem sem executá-la, e ao final, olhos fechados ouvir a música final  que faz parte do sonho que realizarei absorvida nessa fascinação  que sempre me envolveu..
Vânia Moreira Diniz

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia- 21 de Março


Dia 21 de março é a data promulgada pela UNESCO para a celebração do Dia Mundial da Poesia.


A Poesia é a forma lírica de transmitir mensagens que saem da alma com força de expressão e admiram a natureza, os sentimentos, o ser humano em geral comunicando com vigor e graça seu canto, conceitos, sonhos, ideais e qualquer tema inspirado.


Poesia é também o entendimento no olhar, na doçura das palavras pronunciadas com suavidade e a certeza que merecemos a luz do horizonte, independente da cor, do formato do rosto, do lugar em que se nasceu, das características sexuais e cujo preconceito certamente seria repudiado pela sociedade.

Emocionalmente falando as mãos seriam dadas até nas tristezas e teríamos mais respeito por todas as diferenças existentes.


A diferença é a forma mais bonita de nos aperfeiçoarmos com as experiências mútuas e a poesia está apta para cantar esse sentimento de ternura que resplandece no amor universal. Há melhor e mais profunda forma de entendermos a alma de outra pessoa que necessita das mesmas alegrias intrínsecas como cada um de nós?


Se existisse mais poesia nas relações humanas, tudo seria mais fácil e as marcas do amor e da solidariedade estariam presentes , assim como o egoísmo se manifestaria com menos ênfase dando passagem à preocupação pelo outro cujo caminho ameno, mesmo nos momentos difíceis nos levaria à paz, na verdade, a única passagem para a felicidade.


Poesia é amor, canto e encanto, luz que não amortece os olhos, união estreita com nossos irmãos de caminhada, certeza que o sorriso seria tanto mais bonito e enternecedor quanto mais fosse dado com a alma, entrega de sentimentos, necessários à felicidade de cada um de nós. Fortuna que só se encontra no espírito e que satisfaz nosso ser interior


Poesia é beleza, não apenas enfeitando a superficialidade, mas vibrando nos acordes da emoção para que seja sentido numa extensão tão sublime que não seria possível escassear nem com a passagem do tempo e nem mesmo com a duração finita de nosso tempo.


Poesia é o que vamos legar aos nossos descendentes, mesmo que eles não sejam poetas, é a esperança que disseminamos durante a existência e cuja semente plantamos para que seja regada com amor e afinal, um dia, possa nascer os frutos para uma humanidade menos sofredora, menos perversa e onde os valores maiores não sejam tão materiais e individualistas.


Isto é a verdadeira poesia. Tentaremos transportá-la mesmo nesse instante difícil da história da humanidade, porém ela saberá florescer cada vez mais lírica e verdadeira para que o universo se transforme num oásis de paz, mesmo que tenhamos que lutar com dificuldade para encontrar o verdadeiro amor universal.


Poesia é entrega, dedicação, altruísmo nos versos rimados ou não, mas que encontram a compreensão do momento em que nascemos, aspirando o oxigênio que nos fez chorar para que a abrangência de nossos atos sejam capazes de deixar um motivo para entendermos o porquê de nossa presença neste mundo.


Poesia que o mundo todo comemora nesse dia 21 de março é vida, comemoração, entrega útil, verdadeira e crescente e que podemos repetindo mil vezes a palavra amor em todos os sentidos chegar ao cerne da expressão lírica que o entusiasmo criador expressa, transforma e entende.


Vânia Moreira Diniz

segunda-feira, 19 de março de 2012

Urgência

Vânia Moreira Diniz

Tenho urgência de escrever. Uma urgência angustiante. Preciso sempre escrever mais. Como se sem isso me faltasse oxigênio, ou não pudesse me perpetuar.

Quando era ainda garota minha mãe dizia, que eu parecia querer realizar tudo  rapidamente como se não existisse o amanhã.  E era mais ou menos isso. As mães se não concordam, pelo menos tem a percepção da alma do filho. E imagino que tenha sido isso que aconteceu com ela.

Atualmente continuo na mesma corrida contra o tempo e mais precisamente ultimamente, como se necessitasse concretizar todos os meus sonhos num passe de mágica. Num abrir rápido e profundo de olhos. No perpassar da borboleta azul e maravilhosa, a me indicar um caminho encantado e desconhecido. A mostrar uma paisagem já não tão familiar, mas igualmente aberta e maravilhosa. A me indicar simultaneamente dois sentidos no novo caminhar de luz e uma escuridão generosa contrastante e, no entanto poderosamente soberana.

Sinto urgência em derramar minha alma em flocos de poesia e fascinante ternura, e ser entendida nos menores sentimentos expulsos num momento de explosão inspirada e deliciosa. Urgência em divagar cada vez mais e com os olhos da emoção plena e verdadeira. Sentindo em cada expressão, minha alma que se deleita na esperança de todas as sensações. 

Principalmente sinto urgência de escrever muito e cada vez mais, o que couber no espaço do meu tempo, dissecar o ínfimo de cada sensação, transformando as lágrimas em sorrisos e espalhando o amor generoso nas palavras, dissertando sobre cada prazer sentido com volúpia e do amor experimentado como doce néctar. De misturar num só passo, alegrias e tristezas, choro e gargalhadas, transformando-os no viver contínuo e desejado.

Tenho urgência de espalhar as letras, formar palavras e transformá-las em esperança, vida, amor, sentimento, carícia, deleite, perdão, carinho  no paraíso inconsciente da nossa inusitada sensibilidade. Tenho pressa, muita pressa de escrever cada vez mais o que me desfila pelos olhos em devaneios, e o que se concentra no espírito, discreto e contrastantemente delirante.

Tenho uma urgência voraz de escrever  sempre mais, como se pudesse gozar nesse momento em eterno orgasmo a simbiose do corpo e alma entrelaçados em orgia literária. E conseguisse extrair deles a  seiva da  vida que se extingue lenta e caprichosamente sem ânsias ou tormentos porém progressivamente em intervalos cada vez mais curtos.

Preciso escrever, desejar, sentir, usufruir, ajudar, atender, socorrer, aspirar o ar e me aquecer ao sol, fechar os olhos brincando nas ondas espumentas e grossas, belas e inspiradoras. Preciso andar pela areia branca e sentir sua maciez, apreciar a natureza e amar cada vez mais.  Preciso escrever, preciso viver enquanto puder. Tenho urgência  de escrever  cada vez mais...
Vânia Moreira Diniz

sexta-feira, 16 de março de 2012

Crianças Especiais e Encantadoras

        Dedicada a todas as crianças e Pessoas Especiais
                                                      
                                                            
            Há dias foi um dia de festa e alegria. Fui visitar e participar de uma festa, numa clínica onde muitas crianças maravilhosas carregam suas síndromes as mais variadas e são tratadas e acarinhadas com amor fazendo com que cresçam com a auto-estima em progressão. Desde de síndrome de Down até todas as outras maiores ou menores que as tornam uma criança especial.

          Entrando aproximei-me de alguém que amo especialmente. Loura, os olhos azuis esverdeados fixando ao longe um ponto indistinto, imagino que queira trazer para seu interior ainda tão infantil, esperanças e  visualize o colorido da felicidade . Minha vontade é abraçá-la e pedir-lhe que nos proteja,  chorando silenciosamente no seu colinho frágil e pequenino. Minha vontade é pedir-lhe fortaleza em minhas fraquezas para que possa ajudá-la. Minha vontade é infundir-lhe um calor tão grande que suas mãozinhas geralmente frias possam aquecer-se. Minha vontade é beijá-la e protegê-la do mundo e da vida, dizendo-lhe que sempre estarei aqui. Mas estaria enganando a mim e a ela. Prometo, então que de onde estiver a amarei sempre. Minha vontade é sempre vê-la sorrir invariavelmente e terei também nos lábios o sorriso úmido da esperança.

          Aproximei-me de cada uma das crianças sentindo seus anseios indistintos, vontades não expressas e vigor nas investidas, que começam a manifestar-se de uma maneira  singular e emocionante.E amei-as a todas. Querendo  perscrutar seus mundos diferentes e me envolver com cada uma, levando  ininterruptamente a fé que carrego e canalizo em direção a elas.

           Em meio ao barulho dos balões e as guloseimas que usufruíam encantados, percebi o quanto de vida e alegria existiam nos rostinhos inocentes que me fixavam como a pedir que lhes desse as mãos. Transformei-me em um deles, percorrendo os meandros de seus cérebros e querendo ver na densidade semi-obscura dos pensamentos,  a luz que estaria sempre presente  no decorrer confuso da vida.

             Tive a convicção da vitória, do desenvolvimento lento, mas progressivo, da alegria que  transparecia, da paz que parecia projetar algo claro e  objetivo, naquele confusos caminhos da mente  ainda não definida.

             Sinto então uma mãozinha fria, apesar do corpo completamente agasalhado que buscava  meu calor.  Era a minha pequenina, tão linda sempre sonhando com aquele colorido que a encantava. Dei-lhe a mão e percorremos juntas todo o espaço, que estava cercado por barraquinhas cheias de guloseimas, ou preparado para a “pescaria” de pequenas lembranças.

             Enquanto segurava–a com uma das mãos, voltei-me para pegar a mãozinha de outra criança, cujos olhos amendoados, nos traços marcantes da síndrome de Down, só ocorridos pela diferença de um cromossomo, estavam evidentes, e procurei ler dentro de seu olhar a força que carregavam. E então as pequenas pescaram com minha ajuda cada uma a sua prenda.

              Vi fascinada enquanto olhavam confusas para o pequeno presente, que a vida se manifestava em cada lembrança que recebessem, com aquele olhar curioso que concentrado por um minuto, apareceu com expressão ligeiramente definida e rápida. Amei aquele instante perpassado tão rápido, que enchia meus olhos de lágrimas abundantes e os das pequeninas de lucidez.
Vânia Moreira Diniz

quinta-feira, 15 de março de 2012

Duas Vertentes

                  
A indiferença está tão grande acrescida sempre da violência em todos os setores da vida que nos perguntamos o porquê  de muitas comemorações hipócritas ou palavras doces que rodeiam as pessoas entre si. A verdade dificilmente se apresenta com suas cores naturais e a singeleza com que vemos a dor e os sofrimentos de outras pessoas é simplesmente patética.

Agora que a tecnologia tomou conta de tudo e deveria ser um ponto positivo e atuante,  sentimos até virtualmente esse cruel egocentrismo, mesmo com as delicadezas e as flores que de instante a instante se jogam em grupos e nos e-mails. Isso é fácil quando não precisamos nos esforçar para dar ao outro o carinho e aconchego que deveria ser tão simples no ser humano.

Adoro a informática, mas lamento que ela esteja servindo na maioria das vezes para acirrar o egoísmo, a centralização única nos próprios trabalhos, esquecendo que é dando que se recebe e incentivando na criança e no jovem  a insensibilidade quando se trata de seu próximo.

Ao mesmo tempo sou verdadeiramente fascinada pela tecnologia que em poucos segundos nos leva a países e continentes distantes e nos dá chances incríveis em todos os tipos de assuntos, estudos ou pesquisas. Um texto que preparávamos  numa longa vigília, jogando papéis fora e tendo um trabalho ilimitado atualmente é um passe de mágica, fascínio que nos encanta e economiza horas e horas de trabalho.

A internet então nem se fala, com toda a sedução de explorar o universo no exato momento que desejamos.  E a fatal indiferença me parece mais evidente principalmente pela assiduidade com que nos deparamos com misérias e dores alheias aumentadas a cada dia que passa, lamentavelmente.

Sinto que muitas pessoas sentem uma solidão gerada talvez pelo frio contato do computador sem o efusivo aperto de mãos, olhos nos olhos e o aquecimento do abraço confortador. Isso porque a maioria se isola apenas num mundo frio e mesmo assim, sente a distância até das palavras porque o e-mail é em sua maioria algo frio e impessoal.

Devemos, no entanto, valorizar o que o computador e a internet podem nos trazer de felicidade. Há algum tempo encontrei uma amiga de longos anos. Nós nos distanciamos pela própria vida e porque seguimos caminhos diferentes, ela foi morar e casou na Alemanha. Quando me escreveu depois de me localizar na Usina de letras a alegria transbordou e prometemos que jamais deixaríamos a distância se interpor entre nós e nossa terna amizade fraternal. Vania é minha xará, amiga, confidente, voltamos a nos encontrar várias vezes e estamos até fazendo trabalho juntas. Nossas famílias se conhecem bem. Foi realmente uma alegria.

A vida tem sempre duas vertentes, por isso nos momentos atuais em que estamos presenciando os acontecimentos brasileiros que nos trazem tristeza e perplexidade, precisamos ter esperanças  acompanhando  cada passo do que está acontecendo em nosso país e sabendo discernir para não errar na hora crucial do voto consciente.

Duas vertentes também para nós, utilizando a proximidade da tecnologia para não transformá-la em um abismo de impassibilidade, mas aproveitando para nos unir, mesmo porque a vida é infinitamente curta. Procurarei transformar a minha reflexão num conteúdo de verdade para mim mesma.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dia Nacional do Poeta -Homenagem a Castro Alves



Nas palavras da escritora Vânia Diniz a homenagem da ALB ao 14 DE MARÇO - DIA NACIONAL DA POESIA - encontrando representação desta data, no poeta abolicionista Castro Alves - o qual, fazia da poesia, não apenas um instrumento a serviço do belo, da forma, do amor e da arte. Mas, sobretudo, utilizou o verso em defesa de direitos humanos, participando ativamente do processo abolicionista brasileiro. Um exemplo da cultura ativa, da palavra viva e do sonho transformado em ideal, objetivo e realidade. Mais do que o dia da poesia, comemora-se, com salvas, os títulos nobres e conteúdos comprometidos com a construção de uma sociedade justa e de oportunidades igualitárias, em um Mundo marcado pela desigualdade co-existencial animal e carência bioética. Isto, sem perda do indispensável romantismo de Chopin
(Mário Carabajal).



Dia 14 de março, aniversário de nascimento do nosso grande poeta baiano Castro Alves e em homenagem a ele é comemorado o “Dia Nacional da poesia" e dia 21 festejamos o “Dia Mundial da Poesia”.
Nestas datas comemoramos a poesia em todos os níveis. Aquela que sai da pena dos grandes ou desconhecidos, reflete a beleza do mar, o canto dos pássaros, os espaços luminosos ou a escuridão lírica, onde os namorados fazem suas juras de amor, nas noites enluaradas em que se canta a paixão e até nos momentos lúgubres em que a alma se obscurece e subjetivamente pede socorro e anseia por ternura.
O dia da Poesia retrata a criatura, com sensações, sorrisos, meiguice, o olhar em contemplação ou o sentimento abstratamente real de quem ama. Por isso é uma data especial, em que não há exclusividade nem influência do sucesso ou fama, mas que penetra na alma universal do mais desconhecido ser humano.
Nele a natureza transcende qualquer idéia descritiva para se alojar na beleza, encantamento, fascínio que domina o universo, em suas potencialidades intrínsecas, no infinito de suas revelações e não se refere à criatura somente, mas ao planeta no sentido mais abrangente.
O dia da poesia se manifesta na criança que nasce sofrendo o oxigênio que o inunda, na simplicidade de alguém emanando eflúvios de bondade espontânea, nas crianças à procura do alimento, nos pais chorando a tristeza de não poderem resguardá-lo, na simplicidade dos gestos, ternura dos olhares, reflexos do sol aquecendo o dia ainda frio, na solicitude dos que estendem a mão universalmente e no beijo, máxima expressão de afeto e de carinho.
Nele a bondade é seu maior atributo, generosidade que chega de mansinho sem que faça ruído, solidariedade que se manifesta no aconchego amigo, vaidade que é capaz de apartar seus próprios interesses e olvidar a presença do ego exigente para se doar em transe na presença do ser humano mais próximo.
A esperança se faz realidade, o dia explode em claridade ofuscante, o horizonte chamuscado de cores e projetados pela sombra amarelada espera passos cada vez mais céleres na busca dos sonhos ali abrigados e a estrada amacia os pés que a percorrem, saltitantes e ansiosos.
O dia da Poesia é único e encontra os liames da razão que ordena o minuto de paz, contorna a realidade e absorve o lirismo para que seja divulgado em letras de harmonia a todos que desejam dele se aproximar.
Nele a terra gira impondo química e sentimento enquanto o poeta compõe o que a inspiração sugere radiante em cada momento de suspense ou nos instantes que não se repetirão com a mesma força e realidade. Nele a poesia lidera onipotente e somos instrumentos, expectadores apreciando a força do mundo que naquele momento só poesia infunde.
O dia da Poesia é á conscientização da formosura, vida e alegria, das flores multicores e dos movimentos inconscientes da natureza, dos embalos inesperados, do amor surgindo, da amizade reiterando e das sensações que transmitem a sua origem.

Mas verdadeiramente não há dia específico para a poesia, porque ela existe independente de tempo e hora ou data, constantemente em todas as situações. Dias de poesia são consecutivos, plenos, absorventes e inspiram ao poeta a hora certa de transmiti-los.
Na verdade todos os dias nos levam à poesia de uma maneira ou de outra, por intermédio da natureza, do amor, da generosidade ou do carinho, do olhar de uma criança, do perdão, da compreensão, da saudade e da união de todos os seres humanos.

Vânia Moreira Diniz
12-03-2012



Amo a poesia
Vânia Moreira Diniz

Amo a poesia,
Em seus mínimos movimentos,
No lirismo que comove
Na ternura das verdades,
Encanto a falar de amor,
Anunciando o carinho.
Que se desfaz em frases,
Escorrendo entre palavras,
Chegando ao coração,
Por vezes lágrimas provocando,
Ou sorrisos de meiguice.

Amo a poesia,
Cultuando a natureza,
Em mil versos diferentes,
Enaltecendo os sentimentos,
Do amor universal,
Protegendo os carentes,
Amando os excluídos,
Envolvendo-os com suavidade,
Abrigando os especiais,
Entendendo seus olhares,
E ouvindo seus segredos.

Amo a poesia.
A descrever a natureza,
Seus tons coloridos,
O céu, a terra, as estrelas,
A lua dourada a nos iluminar,
Com a reconhecida magia
de séculos de compreensão,
Os rios em seu curso veloz,
os lagos tranqüilos,
A tempestade devastadora,
E o sol a aquecer o planeta
E trazer o calor que conforta.

Amo a poesia
A falar de amor,
Vibrar nos acordes da paixão,
Acariciar o beijo dos namorados,
Proteger as carícias dos amantes,
Restaurar os elos dos afetos,
Fundir sentimentos partidos,
Interromper as mágoas,
Presenciar o desejo dos que se amam
e indicar-lhes o momento de prazer.

Amo a poesia!

segunda-feira, 12 de março de 2012

MEU ENCONTRO COM A DOR


Acordei, no quarto ainda escuro e olhei instintivamente para o lustre azul que continha um elegante contorno de desenho em alto relevo. Lembro-me que sempre acontecia isso quando acordava. Gostava de apreciá-lo e pensar nas várias atividades do dia. Mas aquele era especial. Estava fazendo doze anos e achava que era dona absoluta do mundo. Tinha o conceito que essa idade era o marco de uma vida adulta. E tudo nessa época me sorria. Tinha tido algumas tristezas na minha infância com a saúde de um primo querido, mas parece que os acontecimentos se encaminhavam agora satisfatoriamente. Era feliz com tudo que encerrava minha vida.

Meu pai bateu de leve e entrou com muitos presentes. Olhei-o sempre me impressionando com a cor de seus olhos imensos cuja expressão todo mundo dizia que se parecia tanto com os meus. Às vezes ficava no espelho a questionar-me e via um pouco deles também. Logo foi me entregando uma pequena caixa que continha um relógio de ouro extremamente delicado com a pulseira escrava que eu tanto gostara e que agora olhava encantada. Os outros presentes eu veria depois, mas aquele era o meu preferido. Adorava relógios, uma mania que carrego até hoje.

Minha vida era divertida. Gostava imensamente de ler e escrevia compulsivamente, invariavelmente em todas as oportunidades. Muitas vezes, em meio a certas brincadeiras infantis quando percebiam que eu desaparecera me encontravam no escritório de meu pai ou no meu quarto escrevendo. Dirigia um pequeno jornalzinho do colégio e achava que era a própria redatora. Mas também gostava imensamente de me divertir, sair com as colegas, viajar, ir ao cinema, patinar, praticar esportes, freqüentar de maneira exagerada lanchonetes e principalmente ir ao teatro. Sempre adorei teatro e naquela época fazia parte, acho, do meu contexto de vida. A praia para mim além de tudo era uma fuga de qualquer coisa que eu não compreendesse ou não gostasse. Muitas vezes, foram me localizar depois de um aborrecimento qualquer deitada na areia da praia, perto de minha casa... O sol tinha uma estranha magia para mim e também essa natureza esplendorosa que eu seguidamente amei. Gostava de admirar o céu enquanto estava deitada em frente ao mar e sentir as águas com as ondas imensas que por vezes geladas molhavam meus pés.

Foi assim no meio de uma vida ativa e buliçosa que vi meus pais perceberem que meu irmãozinho de três anos estava com as pálpebras inchadas. Eu também achei. Ele era muito lindo. Loiro, com enormes olhos verdes azulados, os traços bem delineados no rosto muito claro era uma imagem de quase perfeição. Além disso, e em muitas conversas intermináveis que mantinha com ele dava para verificar com facilidade que sua inteligência estava extremamente acima de uma criança de sua idade. Era muitíssimo agarrado comigo e mantínhamos um estreito relacionamento apesar da diferença de idade. Muitas vezes iria chorar escondido enquanto procurava disfarçar as lágrimas na sua frente. As perguntas que ele fazia me deixava engasgada e como era apenas uma menina começando a adolescência ficava em dúvida quanto ao que poderia lhe dizer.

Foi levado ao médico da família. Dr. Odilon, figura impressionante que estará sempre comigo. Desde pequena acostumara-me a vê-lo e aquele homem essencialmente humano e meigo jamais foi um médico para mim. Era um pai em todos os momentos. Um segundo e maravilhoso pai.

Estava estudando no escritório quando vi que o Dr. Odilon entrara e acercou-se de mim beijando-me e passando a mão em meus cabelos enquanto olhava com interesse o caderno no qual eu parecia estar tão concentrada.

- Está estudando ou escrevendo?

Sorri porque sabia o quanto ele me conhecia.

- Estudando.

- Logo vi. Quando você escreve ou lê não vê ninguém.

- Ao senhor eu veria.

Contemplou-me com os olhos azuis acinzentados que eu tanto amava e que tantas vezes me infundira calma e confiança enquanto respondia:

- Não. Não veria.

Aceitei o que ele disse. É, talvez não visse mesmo, pensei.

- Preciso conversar com sua mãe. Fique estudando.

Saiu fechando a porta e tive certeza que algo sério ele queria dizer. Parecia triste e naquela hora eu não me lembrei que Cláudio fizera vários exames. Era muito garota e até aquele momento nada poderia imaginar de catastrófico.

Ouvi então o barulho de uma voz lamentosa que parecia de minha mãe dizendo:

- Não pode ser. Não pode ser.

Quando cheguei na sala ela chorava muito abraçada ao médico e meu pai procurava se conter, visivelmente chocado.

E só muito depois eles me viram e compreenderam que eu estava lá há bastante tempo.

- Estava aí, Vânia?

Não respondi porque não conseguia falar.

O médico se afastou delicadamente de minha mãe e caminhou até onde eu estava abraçando-me enquanto eu silenciosamente chorava.

- Vamos conversar, disse-me ele.

- O que ele têm?

- Talvez fique bom.

- Talvez? E se não ficar?

- Se não ficar, filha muitas coisas poderão acontecer. Mas há um longo caminho. Explicarei tudo a você. Afinal já é uma mocinha.

2ª PARTE

Foi constatado que Cláudio estava com nefrose. Uma doença do rim que paralisa o órgão fazendo com que a absorção da água seja completa. E naquela época não havia transplante e hemodiálise. Era fatal em quase todos os casos e dolorosa a evolução. Degenerativa. Tinha três médicos que se revezavam continuamente, um deles nefrologista. Homem excepcional a quem muito me afeiçoei. Mas aquele que estava em todas as horas lá era o meu querido Dr. Odilon. As crises eram grandes e as dores imensas e meu irmão passou um ano e meio nesse tormento, mas não vou me estender sobre minúcias desse mal terrível.

Cláudio como já disse era muito ligado a mim e eu ficava horas intermináveis no seu quarto, brincando, conversando, ouvindo música, e meus pais em certas horas me obrigavam a sair de perto dele. Eu tinha que estudar e muito (o colégio exigia demais) e as outras aulas também. Muitas vezes à noite ele tinha crises de dores. E eu desesperada deitada e querendo estar a seu lado, punha as mãos nos ouvidos para não escutar o desespero contra o qual era impotente.

Dr. Odilon, nessas horas ia ao meu quarto para fazer com que eu saísse um pouco daquele martírio. Pedia que eu me levantasse e me levava para dar uma volta de carro pela avenida Atlântica enquanto conversava e procurava me acalmar. Nunca esquecerei, por mais que o tempo passe do som de sua voz extremamente amiga tentando inutilmente fazer-me compreender que a vida não era só composta de tristezas. Eu já não estava acreditando. A única coisa que me aliviava era realmente conversar com ele e escrever. Recordando, lembro-me de quanto me valeram meus desabafos escritos.

Minha dor maior era saber a intensidade do sofrimento de meu irmão e sentir a lenta amargura de meus pais. Muitas vezes Cláudio e eu tínhamos longos papos. Ele costumava se olhar no espelho e via o quanto estava inchado. Um dia me perguntou

- Eu era bonito, não era, Vânia?

- Você é bonito!

- Não, não sou. Por que?  Por que eu fiquei assim?

- É só durante algum tempo, Claudinho.

- Eu vou morrer?

- É claro que não. Não vê que os médicos estão cuidando disso?

- Vânia eu queria ir para o colégio.

- Não poderá ser agora. Quem sabe o ano que vem você já poderá estar lá?

Ele olhava para mim desconsolado e eu queria morrer naquele momento. Minha vontade era morrer e eu me perguntava: Por que? Não sabia mais o que responder ao meu irmãozinho o que dizer. Eu não poderia me responder. Quem me responderia?

Lembro-me que muitas vezes as freiras ou professoras do colégio me encontravam na sala de biologia tentando descobrir onde estava o mal de Cláudio, lendo alguma coisa, procurando em livros. Ou observando os órgãos fictícios expostos na vitrine para estudo. Eu queria uma resposta e também saber que doença era essa.

Várias vezes quando eu fazia inúmeras perguntas ao médico ele me dizia penalizado enquanto me abraçava forte:

- Por que você quer saber, filha? Vai adiantar?

- Eu não sei sofrer sem compreender.

E quando me olhou seus olhos tão meigos estavam rasos de lágrimas. Nunca agradecerei suficiente a esse homem especial o que ele me ajudou. Não sei o que seria de todos nós sem o seu carinho. Não sei. A mim especialmente ele se dedicava com afinco. Eu era praticamente a única menina entre muitos irmãos e minhas duas irmãs eram muito pequenas (Uma delas tinha poucos meses.). Por isso Cláudio sempre fora muito ligado a mim e eu a ele. Lembro-me que havia duas babás que se revezavam a seu lado, mas na verdade, ele desejava a minha companhia em todas as horas livres. Para ser sincera, embora ficasse muito emocionada gostava de estar sempre com meu irmão. Almoçava muitas vezes a sua comida sem sal e não reclamava simplesmente para satisfazê-lo. Por incrível que possa parecer em várias oportunidades nos surpreendiam dando gargalhadas por histórias mutuamente trocadas. Ou algum programa de televisão. Mesmo que depois chorasse muito. Meus pais sofriam demais e era difícil vê-los assim.

Perguntava-me se Deus era justo e não conseguia uma resposta muito coerente. Nas horas longas das noites mal dormidas, costumava rezar, pedindo a cura quase impossível desse menino tão amado. E até hoje sinto meu rosto arder naquelas lágrimas derramadas.


3ª PARTE

Foi difícil ouvir que Cláudio estava piorando, mas era verdade. Minha mãe nunca aceitou a idéia dele morrer. De jeito nenhum. Naqueles dias ele piorara tanto que passou rapidamente para o coma. O que agradeço a Deus foi o bem-estar que o menino pode ter, pois até oxigênio, aparelhos e cama especializada foram levadas para minha casa e assim ele pode ter o conforto de ficar em seu ambiente e ter sido cercado por médicos competentes já que minha família era composta por muito deles. Era mais fácil providenciar tudo isso.

Recordo-me que uma vez enquanto meu irmão estava nos últimos dias, eu ficava com remorso de brincar sabendo seu estado. A professora acercou-se de mim, perguntando:

- Por que não vai se divertir um pouco um pouco, Vânia?

Minhas amigas tinham vindo me chamar.

- Acho que não devo. Ele está sofrendo

- E você acha que isso não é certo? Você precisa se recuperar. Só o conseguirá tentando viver a sua idade, minha querida. Vá brincar.

Nesse dia quando cheguei em casa ele havia piorado ainda mais. Chorei desesperadamente enquanto Dr. Odilon procurava me fazer compreender que tudo fora uma coincidência. E então minha mãe aproximou-se de mim:

- Minha filha, nós nunca aceitamos a idéia dele morrer, não é verdade?

Balancei a cabeça afirmativamente:

- Mas se ele morrer devemos aceitar.

- Ele não vai morrer.

- Mas se isso acontecer, deveremos nos conformar. Está pensando apenas em você? Talvez Deus ache que seja o seu descanso. Devemos estar preparados.

Não dava para falar. A dor era grande demais. Era demasiado ainda ter que dizer alguma coisa.

Assisti todos os minutos do seu fim. Não abri mão disso mesmo com a ordem severa do Dr. Odilon:

- Fique ali, Vânia, perto de sua mãe. Ela precisa de você.

- Desculpe. Vou ficar aqui.

- Minha filha, ele está morrendo.

- Eu sei. Vou ficar com ele. Até o final.

Abraçado comigo compreendeu que não adiantaria insistir. Não contarei a dor. Nem poderia. Ultrapassa qualquer cena que pudesse descrever. Não é descritível. Não é humana. Nem consolável. O coração dói como se fosse ferida. Dizem que o coração só se manifesta no enfarto ou na angina. Não é verdade. Dói no sofrimento, na saudade, na tristeza e é uma dor quase insuportável. Desumana.

Vi tudo até seu último momento entre meu pai e Dr. Odilon. E jamais esquecerei, nem que eu viva duzentos anos a imagem que está fixada na minha memória nítida, profunda e marcante. Sem palavras.



CONCLUSÃO



Não compareci ao enterro por razões óbvias e por proibição do médico e dos meus pais. Meu pai resolveu que todos sairíamos durante algum tempo da casa, mas as empregadas ficariam mantendo o ritmo normal.

Eu iria para casa do meu tio na Rua Raimundo Corrêa, na qual já brincara muito na infância, pois fora de minha avó. Achavam que a presença de meus primos poderia me animar muito. Só que antes, pedi ao Dr. Odilon que me levasse até em casa. Precisava ir lá. Ele prontamente atendeu-me certo que eu queria buscar alguma coisa.

Entrei emocionada e ele perguntou-me

- Que quer, aqui, querida?

- Vou lhe pedir um favor.

- Quem poderia negar-lhe qualquer coisa? Muito menos eu. Diga. Não quer ir para casa do seu tio? Quer ficar lá em casa?

- Não é isso. Quero que o senhor me espere aqui embaixo. Vou ter que subir até meu quarto. Demorarei um pouquinho.

Ele assustou-se.

- E por que, Vânia? Que vai fazer?

As lágrimas caiam abundantemente quando respondi:

- Escrever... Eu preciso. Sem isso não vou conseguir ir para lugar nenhum.

Muito delicadamente, ele segurou meu rosto entre as mãos, olhou-me daquele jeito que só ele sabia, transbordante de carinho, amor e preocupação e respondeu-me:

- Vá, minha filha, Escreva. Eu esperarei o tempo que for necessário. Ficarei no escritório de seu pai. Se precisar de alguma coisa, grite.

- Não precisarei. Só de papel e caneta.

Lentamente encaminhei-me para a escada, e sentia urgência de chegar. Antes resolvi entrar no quarto de meu irmãozinho, cercado de tantos brinquedos e jogos modernos que meu pai comprava todos os dias para ele e entendi que nada, nada mesmo compensava sentimento e ternura e ultrapassaria nossa humana ineficácia.

E que nada seria importante se não houvesse amor. Amor em todos os sentidos. Amor humano em geral. Muitas vezes a vida me confirmaria isso.

Chorando muito, entrei no meu quarto, sentei à minha mesa com um nó imenso na garganta e quando comecei a escrever percebi um ligeiro, quase imperceptível alívio no coração.
Vânia Moreira Diniz

OBS-O depoimento, os nomes e os Personagens são absolutamente reais.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Recordações de minha mãe no Dia Internacional da Mulher

Minha mãe, minha tia e eu no dia do meu lançamento de livro no Rio
                                                      
 Hoje recordando saudosamente minha mãe toda uma vida desfilou frente aos meus olhos que extasiados observavam através da imaginação. Costumo fazer isso muitas vezes em momentos de alheamento, introspecção e privacidade. Mas dessa vez foi algo mais nítido como se tudo estivesse se passando naquele momento.

Revia-a jovem, os cabelos muito escuros e brilhantes, os olhos negros e grandes, a pele aveludada com a maciez de alguém que não abusa da maquillagem, a bela figura jovem que algumas vezes me esperava na porta de minha casa antes que eu descesse do ônibus escolar.

Não lembro exatamente de minha mãe cuidando dos pequenos detalhes de uma casa ou dos filhos no dia a dia. Eu a amava, contudo não conseguia falar de mim mesma ou do que se passava comigo em nenhum momento. Sempre foi cerimoniosa e formal em demasia.

Lembro-me dela sentada na sala, elegante e perfumada, os lábios cujo batom dava à sua pele uma cor especial e bonita, e realçava a cútis muito clara. Em nenhum momento a via ter um gesto mais descontraído como hoje estamos cansadas de abusar.

Revendo-a corri no tempo até minha infância no bairro de Copacabana no Rio de Janeiro numa rua de tanto movimento que os adultos se assustavam cada vez que chegávamos até o portão da casa. Mas foi ali na Rua  Barata Ribeiro com os carros alucinadamente correndo, muita gente passando apressada, as crianças impedidas de brincar em suas bicicletas ou patinetes, as casas ainda sem tantas grades e as lojas num movimento crescente de clientes que eu vivi minha infância e adolescência. Era ali que eu construía meus castelos de sonhos de papel que a vida nem sempre transformaria em algo sólido como pedra e muitas vezes rasgaria sem piedade. Era ali que eu aprendia a reconhecer as pessoas, a vê-las em momentos variados de alegria esfuziante, entusiasmo crescente, placidez monótona ou tristeza arrebatadora.



Era ali que eu recebia minhas amigas mais queridas, que brincava ou observava, mas sempre com alguém a me recomendar prudência e que via o mundo com olhos encantados. Era ali que no interior daquela casa num imenso terreno eu fazia minhas evoluções nos patins cujo rodopio me dava a sensação vertiginosa de vida e efervescência e cujo fascínio me arrebatava. E foi ali que eu cresci entre o movimento que aumentava cada vez mais e o progresso ainda maior que chegava antes de qualquer coisa para se instalar a um tempo magnífico e perigoso. Para mim aquele lugar era o paraíso que eu observava com olhos deslumbrados e ansiosos procurando sempre ver mais e mais profundamente.


Era ali, bem perto do mar que exercia sobre mim uma estranha magia e também conforto apesar de sua imensidão. Era na praia olhando as ondas que subiam que muitas vezes eu encontrava uma tranqüilidade estranha e podia pensar, devanear ou me acalmar.
Sentindo nos pés a água muita gelada eu entendia que a força daquele infinito era o rei do universo. E o respeitava, mas também o idolatrava.
 E o sol que esparzia seus raios sem nenhuma cerimônia e cujo calor me trazia uma sensação agradável quase sensual na tepidez com que se encostava a minha pele, me dava uma energia incomparável.

 Foram essas recordações que  me transportaram de uma maneira completamente arrebatadora fazendo com que eu me sentisse outra vez aquela garota cujo movimento e beleza desse bairro carioca em que fui criada me dominasse a ponto de me ver sentada tão perto do mar que quase sentia minha pele molhada e áspera pela areia grudada em todo meu corpo. 
Vânia Moreira Diniz
               

terça-feira, 6 de março de 2012

Mágica de ser Mulher


Acima de todas as conquistas devemos conservar a o maior dom que temos: A Mágica de ser mulher                                                                     

Aprendi a ter orgulho de ser mulher desde que tomei conhecimento da vida. Nada podia ser mais enaltecido em minha família do que a figura ímpar  da mulher.  De tudo que ouvia falar na minha infância estava ela ali, imponente e magnífica em todos os aspectos.

Olhava para os lados e via muita admiração à minha volta. Assim foi o lar que cresci. Tive muitas e fortes divergências com meu pai, e por vezes meus olhos enchiam-se de lágrimas ao contemplar seus profundos e expressivos olhos azuis. Mas nunca, em nenhuma oportunidade, nem nos momentos mais conflitantes, encostou a mão nem de leve em minhas irmãs ou em mim, como gesto de agressão.

Minha mãe estava sempre altiva, a manter segurança e conservar uma confiança natural, que expandia certa de seu valor, e acostumei-me a vê-la sempre admirada e majestosa. Claro que sabia e convivia com algumas que ainda se sentiam oprimidas e infelizes. Falava-se muito na evolução da mulher e nos direitos inerentes, e as ativistas, a todo o momento,  impunham as idéias da  supremacia que deveria existir ou conquistarmos.

 Havia, entretanto os hábitos machistas enraizados, e até leis que ainda protegiam a subserviência feminina, que aos poucos estava sendo combatida com veemência, propiciando a vitória que  sorria com ânimo e certeza.

Olhava para o mundo empolgada por pertencer a um sexo que se doava incessantemente, mas que tinha em contraposição alegrias e prazeres especiais, oriundas dessa categoria privilegiada, e cuja liberdade e independência surgiam apesar de todos os preconceitos.

Adquirimos direitos que nossas avós jamais sonharam um dia,  entretanto  não podemos esquecer que ao lado da liberdade, do livre arbítrio, da facilidade de andar e escolher nossos próprios destinos e ter um lugar ao sol, que nos conduz à legitimidade de direitos e deveres, somos realmente mulher. E acima de tudo devemos preservar a todo o custo a feminilidade, fascínio e encanto de  todas nós.

O difícil não é vencermos as batalhas que enfrentamos e nas quais hasteamos uma bandeira de lutas gloriosas, porém obter isso tudo, conservando a mágica de ser mulher.                                  

Vânia Moreira Diniz
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