terça-feira, 26 de junho de 2012

A Riqueza e a Fome

                                                          Vânia Moreira Diniz
               Não tenho vergonha de dizer que nasci em berço de ouro. Tudo que a vida podia me proporcionar em termos de bens materiais ela o fez. Ali, ao nascer. Meu pai era um homem de muito prestígio, advogado e psiquiatra famoso e respeitado. E todos os meus desejos eram prontamente atendidos.  Olhava tudo isso com naturalidade já que nascera ali e não conhecia outro ambiente. Logo comecei a perceber o quanto a vida era injusta.

        Ao mesmo tempo, muito cedo tive uma visão completamente límpida que tudo isso serviria para conforto e tranqüilidade, mas jamais constituiria o caminho certo da verdadeira felicidade. Pelo menos da minha felicidade. Ainda muita criança perguntava aos meus pais porque havia tanta diferença entre os pequenos que eu via pedindo esmola na rua e eu ou minhas amiguinhas. Eles explicavam ao modo que os adultos procuram convencer as crianças. E a vida continuava. Eu sempre com minhas dúvidas. Minha vida foi oposta à maioria das pessoas. Saí de casa muito cedo para casar, contra vontade de meus pais  e para escolher e traçar meu próprio destino. O conforto excessivo foi trocado pela luta de cada dia. E pude verificar o quanto a vida pode ser difícil. Difícil, porém gratificante quando se procura objetivos.

        Havia uma obra social que as docentes do meu colégio faziam entre os mais necessitados. E cedo pedi para que me deixasse acompanhá-las ao morro  nos dias feriados, para visitar as pessoas que lá moravam. Eu tinha dez anos e durante algum tempo minha mãe proibiu absolutamente mesmo com as professoras, esse passeio que aos meus olhos seria fascinante. Finalmente aos 12 anos meus pais  foram convencidos que teria sempre alguém perto de mim e a contragosto deles subi ao Morro Dona Marta e encontrei um mundo maravilhoso e inusitado. Pobre, triste, devastador pela escassez de conforto, mas encantador pela luta e forças dos que lá viviam. Claro que sabemos o que existe de violência, mas será somente lá? E não terá começado pela desesperança e carência das coisas mais elementares? Como um gesto de carinho? Não estou justificando, mas não sei o que seria de cada um de nós se tivéssemos enfrentado tanta tristeza, miséria e dor!

          A simplicidade e pobreza daquelas crianças me emocionaram e encontramos atrações diversas no modo de viver. Partilhamos experiências em nossas conversas e aprendi muito das suas vivências que me empolgavam. É como se ali, duas vezes por semana, me sentisse completamente livre de qualquer entrave, o que em Copacabana, na movimentada Rua Barata Ribeiro eu não conseguia. Foi uma lição de vida, trocas de sentimentos e sofrimentos antagônicos partilhados mutuamente. Dei aulas aos pequenos que não eram alfabetizados ou que tiveram que sair do colégio para ajudar aos pais.

         Começou aí meu grande ideal que junto à literatura, iria me acompanhar em todos os momentos e que minha mãe brincando comigo chamava de “socialista”

Ver um mundo melhor, menos diferenciado e mais humano constituiu meu pensamento de muitas horas adolescentes. Costumava cismar no enigma da riqueza e da fome.

        Compreendi pouco depois que os sofrimentos são variados e universais e que outros tipos de dores substituem a falta da pobreza e de recursos. Que todos sofrem em menor ou maior grau e também que as alegrias são múltiplas e atingem a todas as camadas.

         Observando, porém no decorrer de minha vida como a pobreza tem aumentado e a miséria vem predominando, vejo o quanto falamos e enunciamos palavras bonitas sem entender o que é a fome. Como podemos entendê-la se essa peste da humanidade é tão devastadora e amarga , deixando pessoas e crianças em lamentável situação de horror e debilidade?

       Que se reproduz mais forte e mais potente enquanto restos de comida são jogados fora e o solo fertiliza maravilhosamente em nosso país? Como entenderemos se nunca passamos por tragédia tão pungente e aniquilante?

. Aí está um espaço em meu site em que falamos da fome, com o apoio de muitos poetas que aderiram ao movimento e muitas e muitas pessoas que me escreveram emocionados. A todos elas eu agradeço com grande carinho. O que lamento é que tudo isso foram apenas gritos no deserto, como com milhares de pessoas que tentam abordá-la ou tem a ilusão que seus lamentos surtirão algum efeito.  Mas continuaremos, sem restrições, com persistência maior que antes, agarrando-nos a qualquer esperança mesmo suave que possa existir.

          Sozinhos não vamos resolver o problema da fome e da miséria, mas podemos ajudar aquele que está ao nosso lado, e ele na medida que possa, ao que está perto dele. Assim sucessivamente. Não solucionaremos, mas amenizaremos, suavizaremos e tentaremos dar um pouco de alento. Vamos então a um asilo, creche ou a uma ou mais famílias que precisam nosso apoio moral, espiritual e material. Sem alardes! Silenciosa!  Ternamente!

          Se todos conseguirmos isso já é uma esperança, que brilhará como uma luz talvez fugidia, mas constante e esperamos que vigorosa.

 Vânia Moreira Diniz

quarta-feira, 13 de junho de 2012


Junho

O Mês de junho sempre foi um dos mais eletrizantes de minha vida. Estávamos ali no meio do ano, quase em férias, os fogos estourando, principalmente à noite, quando todos se reuniam para comemorar cada dia daquele período. Meu pai nascera em junho no mesmo dia da comemoração tradicional e essa festa deixava em meu coração uma alegria irresistível porque tudo era regozijo nessa época distante, mas sempre muito nítida.

Os fogos eram os mais variados e subiam pelo céu azul de Copacabana fazendo rabiscos diversos e formando figuras as mais fascinantes. Quando fixava os pontos já indistintos que se evaporavam no firmamento e submergiam no infinito experimentava uma sensação estranha de que tudo se perdera no nada. E que as imagens de fogo tinham descansado no meio das estrelas.

As noites de junho eram frias e belas e mesmo naquela rua barulhenta e entre muitas pessoas que visitavam a minha casa eu sentia uma estranha paz.

E as quadrilhas improvisadas, as comidas típicas e o quentão característico daquele dia esquentavam o corpo e aqueciam de ternura o coração.

Ainda havia lugar para essa sensação e parece que tudo se foi com o tempo que passou, levando-nos o direito da tranqüilidade, confiança, certeza da solidariedade e verdadeira bondade.

Dia 24 está chegando e já ouço barulho lá longe abafado e pergunto-me com dor no coração se são os fogos comemorativos ou algum tiro perdido de disputas, brigas ou inconseqüência.

Nunca poderia esquecer as festas no fluminense, fantasias estilizadas, a doçura do ambiente, a alegria expressa em cada rosto, animação que ia até pela manhã e cujo final nos entristecia.

A tecnologia foi tomando conta do mundo inteiro, hoje nos comunicamos com o outro lado do universo e podemos receber uma resposta a uma mensagem em poucos segundos, talvez seja difícil o encontro personalizado, olhos nos olhos, mãos dadas passando o calor do sentimento e as repetidas reuniões das pessoas amigas.

São João está próximo e de qualquer forma, vemos crianças animadas, esperando o grande dia e se divertindo como a claridade dos fogos do outro lado da cidade. Crianças mais amadurecidas pelas cenas de violência que presenciam, e menos lépidas pelos divertimentos sem a correria e brincadeiras de outros tempos porque o controle remoto as espera para se divertirem comodamente.

Na verdade o espírito de São João, data sempre esperada e curtida continua a fazer seus efeitos em todas as pessoas especialmente nos pequenos. Voltamos aos tempos de infância e adolescência, tentamos esquecer os últimos acontecimentos e usufruímos aquele prazer ao ar livre, sentindo a sonora risada de todos e perguntando-nos se não é ali que buscamos a energia e animação, cada vez mais longe e tão necessária à manutenção da vida e da felicidade.

São João é uma festa típica brasileira, que por mais que os anos passem e mentalidades mudem não esqueceremos o prazer de vivê-la com intensidade. As danças, as músicas reinventando o interior do país, onde se divertem todos em deleite, unidos esquecidos de quase tudo que não seja aquele momento. Esse é o verdadeiro encanto de Junho vivido especialmente no dia de são João de divertimentos lúdicos inesquecíveis.

Vânia Moreira Diniz

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dimensão


Sinto a distância do tempo, das horas vazias, dos momentos enriquecidos pelos sonhos, da esperanças que se manifestam , da luz que se apaga e a certeza que me aproximo cada vez mais do finito e do encontro imprescindível com um espaço que não imagino sua dimensão
Vãnia Moreira Diniz

domingo, 3 de junho de 2012

Hoje é Domingo

Hoje é domingo e sem querer imagino como foram sempre importantes para mim. Acordava ao som de Vinicius de Morais  e Jobim que meu pai adorava.

Domingo me recorda o sol de Copacabana, praia, amigos reunidos e  alegres bate papos em minha adolescência.Como era bom  acordar tarde, vestir o biquíni correndo, apenas uma pequena toalha em volta da cintura e encontrar a turma na praia e a sedução das águas que sempre amei. Depois de uma conversa animada ficar deitada bem perto do mar e sentir a água fria e estimulante a cobrir o corpo.
      
Já tarde voltávamos queimados e aquecidos e ouvindo as admoestações de minha mãe sobre horários tardios. Mas não esperávamos muito e já era hora do cinema na Avenida Copacabana e depois a reunião na lanchonete "Cirandinha" cheia de conversas animadas, muitos risadas, o olhar brilhando e franco, os namorados a se beijarem tranquilos e os planos animados e sonhos  esperançosos.
      
Hoje é Domingo e vejo a noite estrelada, televisão ligada, movimento da casa inteira, meus irmãos e eu a brigarmos ou brincarmos e a casa cheia e animada. Ah, os Domingos como eram queridos e vertiginosos.
    
 Mais tarde os serões familiares, as histórias fascinantes, todos querendo dar um aparte e os risos das crianças. Meu pai que era kardecista sempre ao fim da noite nos reunia para sortear entre os papéis dobrados alguma boa ação que devíamos cumprir durante a semana.
      
 Isso já se passou. Foi há muitos anos. Outros domingos tiveram significação diferente dependendo da fase que eu estava vivendo. Mas sempre foram marcantes.
       
 Hoje os Domingos têm outro sentido. E fazendo minhas reflexões, vejo a distância de idéias e sonhos que existe entre aquele tempo e os dias atuais.
Mas ainda ouço o som matutino de Vinicius de Morais e tenho uma nostalgia imensa de minhas águas verdes do mar de Copacabana. Hoje é domingo...
Vânia Moreira Diniz
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